A margem, a sobra e o lapso

um olhar sobre os corpos de terroristas do Estado argentino em registros imagéticos involuntários

Autores

DOI:

https://doi.org/10.46391/ALCEU.v22.ed47.2022.231

Palavras-chave:

Ditadura argentina, Registro de Extremistas, Fotografia, Córdoba

Resumo

O artigo analisa o acervo Registro de Extremistas, parte do Archivo Provincial de la Memoria de Córdoba, Argentina, para refletir sobre as marcas involuntárias de presença dos agentes do Estado em imagens produzidas em um centro clandestino de assassinato e tortura. Nos dedicamos ao que escapa ao intento de controle das fotografias prontuariais ao focalizarmos os fragmentos de corpos dos agentes em negativos que circunstancialmente não foram descartados. Ainda que em primeiro plano se encontrem presos posicionados compulsoriamente diante da câmera, buscamos a segunda camada da imagem na qual figuram agentes de Estado atados ao dolo que cometeram por meio do registro fotográfico. Deslocamos a atenção para os lapsos e rastros investindo na conformação de um contra-arquivo que produz sentidos pela observação de presenças fugidias. Defendemos, assim, que o gesto de fotografar se configurou como mais uma violência perpetrada sobre as vítimas da engrenagem repressiva da ditadura no país.

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Biografia do Autor

Flora Daemon, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Professora de Jornalismo do Departamento de Letras e Comunicação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), responsável pelas disciplinas de Comunicação e Direitos Humanos e Ética e Política e Comunicação. Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente desenvolve pesquisa a respeito da responsabilidade de empresas em violações de direitos humanos durante a Ditadura, no âmbito do CAAF/Unifesp/MPF. É autora do livro "Sob o signo da infâmia" (Garamond/Faperj, 2015), estudo que recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Teses.

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Publicado

2022-10-10

Edição

Seção

Artigos