A obra infinita do testemunho: Notas sobre 'Shoah'

Autores

DOI:

https://doi.org/10.46391/ALCEU.v25.ed57.2025.514

Palavras-chave:

Testemunho, Documentário, Shoah, Didi-Huberman

Resumo

Shoah: um filme sobre as palavras sufocadas, sobre os lugares que não se moveram, mas que foi preciso retornar para ouvir e ver o que restou da obra da destruição nazista. Um filme de delicada obstinação, como quem se curva sobre a terra para escutar o que ela guarda em silêncio – os mortos, as cinzas. Quarenta anos depois, suas imagens ainda tremem – ainda nos fazem tremer. Não há arquivos ou dramatização. Sua força micrológica, arqueológica: não busca somente “o que foi” ou “como foi”, mas o que permaneceu do trabalho do extermínio, entre o soterrado e as raízes, entre as pedras e as cinzas. O filme obstinadamente nos convoca a habitar um presente reminiscente, onde o tempo suspendido repete-se em suas fissuras. Nesse filme sem fim, cada retorno é um novo começo – porque o trabalho do testemunho é infinito, frágil, necessário. Como um nome escrito na terra: Shoah. Como um eco que nunca cessa de convocar os mortos – de nos convocar.

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Biografia do Autor

Ricardo Lessa Filho, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Professor adjunto do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente realiza estágio de pós-doutorado com apoio do CNPq. Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco.

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Publicado

02.01.2026

Como Citar

Lessa Filho, R. (2026). A obra infinita do testemunho: Notas sobre ’Shoah’. ALCEU, 25(57), 63–86. https://doi.org/10.46391/ALCEU.v25.ed57.2025.514

Edição

Seção

Dossiê Shoah, 40 anos: Reverberações no Tempo Presente