Chamada para dossiê Michel Foucault, cem anos: a cólera dos fatos

23.10.2026

Fernanda Bruno, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Marcio Tavares d’Amaral, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Mateus Bayer, Universidade Federal Fluminense
Senda Sferco, Universidade de Buenos Aires, Argentina

Editores convidados


“A razão de ser deste curso? Basta abrir os olhos; os que relutarem se acharão no que eu disse.” (Foucault, 2021, p. 3). Essas palavras, anotadas numa folha de papel, iniciam o curso que Foucault pronuncia em 1972 no Collège de France. Elas não deixam dúvidas: o que será enunciado a partir dali só tem justificativa na medida em que pertence aos acontecimentos presentes. Sua fala se dá numa França pós-Maio de 68 que está marcada pela perseguição e detenção de militantes de esquerda, pelo recrudescimento da vigilância em torno das condutas e opiniões, pelas revoltas que eclodem uma após a outra nas prisões…é como se, de repente, todo e qualquer pensamento perdesse sua evidência lógica e fosse tomado de assalto pela “cólera dos fatos”: 

"O que aconteceu de menos insignificante em nossas cabeças há uma quinzena de anos? Direi em um primeiro movimento: certa raiva, uma sensibilidade impaciente, irritada com o que se passa, uma intolerância com a justificação teórica e com todo esse lento trabalho de apaziguamento garantido dia a dia pelo discurso ‘verdadeiro’. Sobre o fundo de um cenário franzino plantado pela filosofia, pela economia política e por tantas outras belas ciências, eis que loucos, doentes, mulheres, crianças, prisioneiros, supliciados e mortos se levantaram, aos milhões. [...] Fomos pegos pela cólera dos fatos." (Foucault, 2012, p. 67)

O seu próprio pensamento não passará impune a essa pletora do tempo. Como nos lembram Ewald e Harcourt (2020), esse é um momento de crise em que Foucault perde tudo aquilo que assegurava a evidência de sua escrita. Tanta perplexidade diantede, paradoxalmente, tanta “obviedade” o faz mastigar a seco suas indeterminações: o que dizer quando tudo parece já estar dito pelos acontecimentos? Mais do que isso: por que dizer, se as coisas parecem falar por si mesmas? O mundo se impõe, as coisas dizem…e subitamente parece que as ideias mais importantes já não estão mais sob aposse dos grandes filósofos. É preciso então se deixar pensar pelos eventos, abandonar a soberania da ascese reflexiva e ir ao encontro físico daquilo que, em seu tempo, apresenta o poder de acontecimentalização. 

Não é à toa que as grandes fotos que temos de Foucault nas ruas vêm exatamente deste período. É o momento de seu mais notável ativismo político, em que sua presença nos espaços os mais diversos se torna uma constante. Sua atuação junto ao Grupo de informações sobre as prisões (GIP), fundado em 1971, é muito elucidativa a respeito desse novo ethos foucaultiano. Nesse momento, encontramos Foucault nas filas junto aos familiares dos presos em dias de visita, nas calçadas distribuindo panfletos, nas manifestações de rua, etc. Este também é o momento em que ele passa a estabelecer um novo modo de relação com os jornais: a partir de agora, eles não são mais apenas os meios pelos quais dará entrevistas e escreverá pequenos artigos, mas sim vias de acontecimentalização dos movimentos políticos de que participava e estava imerso. Esse intenso ativismo encontrou no trabalho jornalístico também uma nova superfície de enunciação do estatuto de seu próprio trabalho histórico-filosófico. Suas palavras no calor dos atos não deixam dúvidas: “Eu me considero um jornalista, uma vez que meu interesse é a atualidade, o que acontece à nossa volta, o que somos e o que se passa no mundo.” (Foucault, 2011, p. 308). Eis então a filosofia como uma espécie de “jornalismo radical” (id, p.309), tomada numa perspectiva que não deixou de espreitar seu trabalho genealógico nos anos que se seguiram.

Aquilo que nos anos 1980 Foucault chamou de ontologia histórica de nós mesmos não deixou de receber os efeitos dessas relações que ele manteve ao longo de sua trajetória não apenas com os jornais, mas também com toda uma diversidade dedispositivos comunicacionais. Se os grandes livros e as “obras” aplicam sobre o que é dito o peso de uma posição decisiva a se eternizar para além de seu tempo, é como se,por meio desses mecanismos de comunicação, Foucault pudesse enfim experimentar sua fala também no campo desses mil acontecimentos cotidianos que, dentre tantos outros,vêm a surgir, agir e desaparecer em seus próprios efeitos. Basta lembrar o volume de suas recém-publicadas conferências radiofônicas para dimensionar o tamanho da importância desses experimentos discursivos. A questões tão cruciais como: o que é nossa atualidade? O que somos nós neste tempo que é o nosso?; Foucault jamais buscou respondê-las tomando o presente como um objeto de reflexão, mas sim como um campo de experiências possíveis nas quais o pensamento se inscreve mais propriamente como uma intervenção engajada em nome dos acontecimentos.

Mas o que significa, hoje, tantos anos depois e num contexto tão diferente, reencontrar esse arquivo sobre o agora de uma época que não é mais a nossa? O centenário de Michel Foucault se dá justamente num momento em que os acontecimentos do mundo novamente parecem se impor aos sistemas de pensamento. Crises climáticas, ascenção da extrema direita, negacionismos, inovações tecnológicas de que ainda não conseguimos mensurar o impacto...tudo isso parece de tal modo excessivo em relação às formulações argumentativas que a própria ordem do discurso parece caducar. O que pode, então, o pensamento diante de toda essa nova “cólera dos fatos”? Talvez, se colocado sob a propriedade de um autor, a resposta seja: muito pouca coisa. Entretanto, não é justamente nessa nova exigência de uma recusa à propriedadeintelectual que um discurso pode então reencontrar o seu lugar? Ao invés de pensar o que são esses acontecimentos, por que não deixar que sejamos pensados por eles? Essa relação entre pensamento e acontecimento, que teve tantas reviravoltas na trajetória foucaultiana, ainda nos deixou uma última indicação da qual nos valemos agora comouma proposta para este dossiê. Falamos aqui daquele projeto ainda pouco explorado em suas possibilidades e que Foucault buscou formular junto ao jornal Corriere della Serano final dos anos 1970 e a que deu o sugestivo nome de “Reportagem de ideias”. O projeto assim foi definido:

"Cabe assistir ao nascimento das ideias e à explosão de sua força: não nos livros que as enunciam, mas nos acontecimentos em que sua força manifesta, nas lutas que se travam em torno das ideias, pró ou contra elas. [...] Tal é o sentido que gostaríamos de dar a essas ‘reportagens’, em que a análise do que se pensa está ligada àquela do que acontece. Os intelectuais trabalharão com os jornalistas no cruzamento das ideias e dos fatos." (Foucault, 2012, p.264)

Talvez o fato de este projeto ter durado tão pouco e ter permanecido tão inacabado seja justamente o que o torna mais fascinante para nossos dias. Este dossiê relança, no aniversário de cem anos de Michel Foucault e no tremor do nosso presente, as provocações ali germinadas. O que teria sido possível se todas as reportagens previstas tivessem sido feitas? O que, por outro lado, não será possível se tantas outrasreportagens ainda por virem se tornem realidade? O que podem as ideias que hoje não cessam de nascer agonisticamente em ambientes difíceis e agudos? Ainda aqui, é Foucault que nos fala mais uma vez: não é que o mundo seja feito de ideias, mas é justamente o fato de as ideias nascerem e existirem que permite que ele não seja conduzido passivamente por aqueles que o dirigem. Portanto, não seriam essas ideias do mundo, hoje, justamente a nossa reserva de inservidão voluntária?

As submissões estarão abertas até 29 de janeiro de 2027, com publicação prevista para maio de 2027. Os artigos devem seguir o modelo para submissão e as normas editoriais da Revista Alceu.

Editores convidados:

Fernanda Bruno é professora do Instituto de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutora em Comunicação pela UFRJ e pesquisadora do CNPq. Integra o MediaLab.UFRJ e é membro fundadora da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS). É autora de Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade (Sulina, 2013).

Marcio Tavares d’Amaral é professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Escola de Comunicação, doutor em Letras pela UFRJ, com pós-doutorado na Université Paris V (Sorbonne). Fundou em 1981 e dirige o Programa de Estudos Avançados (IDEA), onde coordena o Laboratório de História dos Sistemas de Pensamento. Tem 22 livros publicados nas áreas de comunicação, filosofia e história da filosofia.

Mateus Bayer é pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF) e desenvolve trabalhos sobre o pensamento de Michel Foucault, com ênfase em genealogia, lutas de poder e dissidência.

Senda Sferco é doutora em Filosofia pela Université Paris 8 e em Ciências Sociais pela Universidad Nacional de Quilmes. É pesquisadora do CONICET no Instituto de Investigaciones Gino Germani, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, e professora da Universidad Nacional del Litoral. Especialista no pensamento de Michel Foucault, integra a equipe editorial da coleção Fragmentos Foucaultianos (Siglo XXI).