Chamada para Dossiê Crise Climática e Desafios Comunicacionais

29.08.2025

As professoras e pesquisadoras Claudia Sarmento PUC-Rio/King’s College London), Andrea Medrado (Exeter University) e Katarini Giroldo Miguel (UFMS), editoras convidadas do dossiê Crise Climática e Desafios Comunicacionais, propõem a submissão de estudos que colaborem para repensar as estratégias de comunicação da crise climática diante da urgência ecológica e da ascensão de discursos anticientíficos.

O prazo para submissão é 12 de  janeiro de 2026, com publicação no primeiro semestre de 2026. Os artigos, em português ou inglês, devem seguir o modelo para submissão e as normas editoriais ​da revista ALCEU (PPGCOM/PUC-Rio)​.

Segue a chamada completa, com os eixos temáticos propostos:

Diante da crescente ocorrência de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, incêndios florestais, secas e inundações, há consenso entre cientistas de que a janela de ação para conter o aquecimento global está se fechando. A manutenção dos níveis atuais de emissão de gases do efeito estufa pode levar ao chamado “ponto de não-retorno”, ou seja, o colapso de sistemas naturais, com consequências irreversíveis para a humanidade. Nesse contexto, a maneira como a crise ambiental é comunicada torna-se fundamental para informar o público, mobilizar a sociedade e produzir respostas coletivas. No entanto, o discurso midiático em torno da emergência climática transformou-se em campo de disputa política, especialmente em países como o Brasil, palco de desastres ambientais recorrentes, e onde a ascensão de movimentos populistas fomenta narrativas anticientíficas, enquanto a defesa da exploração predatória da terra avança. O cenário impõe desafios urgentes sobre o futuro da vida no planeta, exigindo ações comunicativas que estejam à altura.

Pesquisas mostram que a população se preocupa e consome notícias sobre as mudanças climáticas, embora existam altos níveis de desinformação sobre o tema (Ejaz et al., 2024).  A cobertura jornalística desempenha um papel central para moldar o entendimento e os significados sociais do risco climático. Ao escolher fontes e enquadramentos, influencia a percepção do público acerca de um problema complexo e transversal. Para Beck (2010), a crise climática não diz respeito apenas ao declínio ecológico, mas também à nossa capacidade política e comunicativa de resposta.

Desde a realização da Rio-92, um dos eventos mais importantes da história das negociações ambientais globais, promovida pela ONU, foram significativos os avanços dos estudos sobre as causas antropogênicas do aumento das temperaturas. Paralelamente, as formas de produção e consumo de conteúdo também atravessaram uma revolução. Organizações tradicionais de mídia enfrentam transformações disruptivas que atingem todas as formas de comunicação. Se por um lado não faltam manchetes sobre o meio ambiente, por outro é uma cobertura que exige análise, aprofundamento e comprometimento com a causa socioambiental, elementos às vezes incompatíveis com os critérios de noticiabilidade e o imediatismo da era digital (Hackett, 2017).

Para Bueno, o jornalismo voltado para a cobertura ambiental deveria estar sintonizado com o pluralismo e a diversidade (2007), mas os pressupostos teóricos do campo não estão alinhados com as práticas jornalísticas contemporâneas (Girardi et al., 2020). Ainda que o tema tenha deixado de ser invisível, o número de jornalistas cobrindo o meio ambiente de forma sistemática continua sendo pequeno em todos os países latino-americanos (Koop, 2020).  Trata-se de uma cobertura cíclica, com picos de interesse pautados por eventos como desastres e conferências internacionais (Hansen, 2019). A emergência de mídias não-hegemônicas, por sua vez, ajuda a pluralizar o debate (Loose, 2024). Elas ampliam as críticas ao modelo de desenvolvimento econômico capitalista e colonialista, além de incluir vozes e saberes tradicionalmente apagados das negociações globais, mas essas iniciativas também enfrentam barreiras para serem ouvidas e modelos de financiamento instáveis (Sarmento, 2023). 

Num cenário que combina a amplificação dos riscos climáticos com políticas públicas contraditórias em relação a medidas preventivas e responsivas, o objetivo do dossiê “Crise climática e desafios comunicacionais” é reunir reflexões sobre as transformações, os obstáculos e os possíveis caminhos das práticas comunicativas frente à emergência ambiental e seus múltiplos desdobramentos. Considerando que a comunicação ambiental, enquanto campo de conhecimento, ainda se mostra marginal no âmbito da Ciência das Comunicações no Sul Global (Holanda et al., 2022), gostaríamos de convidar estudos interdisciplinares acerca da midiatização do colapso ecológico. A partir dessa perspectiva, colocam-se algumas questões centrais. Até que ponto jornalistas e outros comunicadores continuam voltados apenas para momentos emergenciais, como as chuvas no Rio Grande do Sul em 2024? Quais são os impactos da concentração midiática na diversidade de narrativas sobre a crise climática, sobretudo no Sul Global? De que forma a predominância de visões catastrofistas (a chamada linguagem do colapso) contribui para explicar as causas e os impactos transversais do aquecimento climático e até que ponto esse enquadramento favorece o engajamento social ou provoca afastamento? Como emoções coletivas, como medo, raiva e esperança, moldam as respostas sociais diante da crise climática? Com a expansão das mídias independentes, em que medida há espaço para discutir temas como racismo ambiental e justiça climática, e quais estratégias têm sido adotadas por coletivos de comunicação comunitária, entre os quais indígenas, ribeirinhos e quilombolas, para disputar o sentido da crise? De que forma é possível repensar as estratégias de comunicação da crise climática diante da urgência ecológica e da ascensão de discursos anticientíficos?

Com esses questionamentos em mente, listamos eixos temáticos indicativos — não exaustivos — que buscam abordagens interdisciplinares e transdisciplinares:

  • Análises sobre disputas discursivas em torno da crise climática dentro de um contexto de polarização política e desinformação;
  • Pesquisas focadas nas interfaces do jornalismo ambiental com outros campos, como o econômico, o político e o científico;
  • Estudos sobre mídias não-hegemônicas e seus esforços para incluir vozes e saberes tradicionais marginalizados;
  • Investigações críticas sobre enquadramentos midiáticos de eventos ambientais específicos;
  • Perspectivas sobre o uso ativista e comunitário de mídias digitais para engajamento em torno de temas ambientais;
  • Abordagens teóricas e estudos empíricos sobre inteligência artificial e a crise climática;
  • Abordagens críticas decoloniais que desafiem paradigmas convencionais na comunicação da crise ecológica.

Editoras convidadas:

Claudia Sarmento é jornalista e pesquisadora com pós-doutorado aprovado pela Marie Skłodowska-Curie Global Fellowship (ECOLA Project), desenvolvido em parceria entre o Departamento de Comunicação da PUC-Rio e o King’s College London e financiado pelo UKRI. É autora do livro “Alternative Forms of News Reporting in Brazil” (Palvragre Macmillan, 2023). Atua nos campos do jornalismo ambiental, mídias alternativas e comunicação decolonial na América Latina. 

Andrea Medrado é professora associada em Comunicação Global e diretora de Pesquisa em Comunicação do Departamento de Comunicação, Drama e Cinema da Universidade de Exeter (Inglaterra). É autora do livro “Media Activism, Artivism and the Fight Against Marginalisation in the Global South” (Routledge, 2023 – com Isabella Rega), que destaca o poder do diálogo para unir comunidades marginalizadas no Sul Global. É co-vice-presidente da IAMCR (reeleita até 2028), onde liderou uma série de webinars com mais de 50 acadêmicos de diversos continentes. 

Katarini Giroldo Miguel é docente nos cursos de graduação em Jornalismo e no Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. É bolsista de pós-doutorado sênior do CNPq, líder do grupo de pesquisa Comunicação e Mobilização dos Movimentos Sociais em Rede (CNPq-UFMS) e pesquisadora dos midiativismos ambientalistas e feministas. Foi coordenadora do grupo de pesquisa Comunicação, Divulgação Científica, Saúde e Meio Ambiente da Intercom entre 2021 e 2024. 


Referências bibliográficas

BECK, U. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Trad.: Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2010.

BUENO, W. Jornalismo ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, Curitiba, n.15, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.5380/dma.v15i0.11897. Acesso em: 13 jun. 2025.

EJAZ, W.; MUKHERJEE, M.; FLETCHER, R. Climate change news audiences: analysis of news use and attitudes in eight countries. Oxford: Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford, 2024. Disponível em: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2025-01/Ejaz_et_al_climate_change_and_news_audiences.pdf. Acesso em: 13 jun. 2025.

GIRARDI, I.M.T.; LOOSE, E.B.; STEIGLEDER; D.G., BELMONTE; R.V. MASSIERER, C. A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do jornalismo ambiental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v.14, n.2, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 13 jun. 2025.

HACKETT, R.A. Democracy, climate crisis and journalism: normative touchstones. In: HACKETT, R.A.; FORDE, S.; GUNSTER, S.; FOXWELL-NORTON, K. (ed.). Journalism and climate crisis: public engagement, media alternatives. London: Routledge, 2017. p. 20-48.

HANSEN, A. Environment, media and communication. London: Routledge, 2019.

HOLANDA, J.S.P.D.; KÄÄPÄ, P.; COSTA, L.M. Jornalismo ambiental: características e interfaces de um campo em construção. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 45, p. e2022109, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1809-58442022109pt. Acesso em: 13 jun. 2025.

KOOP, F. Environmental journalism in Latin America. In: SACHSMAN, D. B.; VALENTI, J. M. (ed.). Routledge handbook of journalism. London: Routledge, 2020. p. 383-391.

LOOSE, E.B. Jornalismo e crise climática: um estudo desde o Sul Global sobre os vínculos do jornalismo com a colonialidade. Florianópolis: Editora Insular, 2024.

SARMENTO, C. Alternative news reporting in Brazil. London: Palgrave Macmillan, 2023.